Parceria entre Unesp de Bauru e Ibama descobre pelo DNA espécies marinhas traficadas no Aeroporto de Guarulhos

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru (SP), trabalham em parceria com fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para identificar, por meio de análises de DNA, animais marinhos apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU), em São Paulo.

A iniciativa utiliza técnicas de genética forense para ajudar no combate ao tráfico internacional de espécies da fauna marinha. Entre os materiais encontrados nas apreensões estão pepinos-do-mar, nadadeiras de tubarão e bexigas natatórias, que seriam enviados ilegalmente para outros países.

Segundo os pesquisadores, as cargas podem ser transportadas em malas, caixas e até embalagens de alimentos. Entre os destinos estão países asiáticos, como China e Hong Kong, além de Estados Unidos, Reino Unido e Itália.

Após as apreensões realizadas no aeroporto, os fiscais do Ibama encaminham amostras dos materiais para o Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes, no campus da Unesp em Bauru. No local, os pesquisadores realizam o sequenciamento genético para determinar a espécie dos animais.

DNA ajuda a identificar espécies

A análise genética é especialmente importante porque muitos dos produtos apreendidos estão secos, desidratados ou bastante degradados. Essas condições dificultam a identificação apenas por características visuais.

A bióloga Auany Camila Fantinelli explica que a equipe produz relatórios técnicos após identificar geneticamente as amostras. Os documentos são encaminhados ao Ibama e podem auxiliar investigações policiais e trabalhos de perícia.

Entre as técnicas utilizadas está o chamado DNA barcoding, método que permite identificar uma espécie a partir de uma sequência específica de seu material genético. Os pesquisadores também utilizam o metabarcoding, que possibilita analisar o DNA de diferentes amostras simultaneamente.

A técnica ajuda a reduzir custos e acelerar o trabalho de identificação, principalmente diante do grande volume de material recolhido nas operações de fiscalização.

O tráfico é impulsionado pelo interesse do mercado internacional e pelo alto valor atribuído a determinadas partes de animais marinhos.

Um dos produtos encontrados é a bexiga natatória, órgão que auxilia os peixes no controle da flutuabilidade. Depois de desidratada, ela pode ser utilizada na indústria alimentícia, em bebidas e na preparação de sopas e caldos, especialmente em mercados asiáticos.

De acordo com os pesquisadores, o quilo do produto pode alcançar cerca de R$ 3 mil. Nadadeiras de tubarão também possuem alto valor comercial e são associadas ao mercado de alimentos, colágeno e medicina tradicional.

Outro alvo das apreensões são os pepinos-do-mar. Os animais são comercializados secos e podem ser utilizados na gastronomia e em produtos relacionados à medicina tradicional.

Além do interesse econômico, os pesquisadores destacam a importância ecológica dos pepinos-do-mar. Esses animais participam da ciclagem de nutrientes nos oceanos e possuem características de regeneração que também despertam interesse científico.

Tráfico pode gerar responsabilização criminal

A exportação irregular de animais silvestres ou de partes deles, sem a documentação e a autorização exigidas pelos órgãos ambientais, pode configurar crime ambiental.

Os responsáveis podem responder por condutas relacionadas à venda, aquisição, transporte ou exportação de espécimes da fauna silvestre ou de produtos derivados sem a devida autorização.

Além das consequências criminais previstas na legislação, os envolvidos podem sofrer sanções administrativas aplicadas pelos órgãos ambientais, incluindo multas. A gravidade das penalidades pode levar em consideração fatores como a quantidade de animais ou produtos apreendidos e as espécies envolvidas.

A parceria entre a Unesp e o Ibama transforma o material apreendido no aeroporto em evidência científica. Com o auxílio do DNA, produtos que poderiam ser praticamente impossíveis de identificar visualmente podem ser associados às espécies de origem, contribuindo para investigações e para o combate ao comércio ilegal da fauna marinha.

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