Vice-presidente afirma que ajuste fiscal deve preservar investimentos e destaca retomada das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), afirmou nesta segunda-feira (31) que o Brasil precisa reduzir a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo ele, o ajuste das contas públicas deve combinar maior controle das despesas com medidas capazes de preservar o crescimento econômico.
A declaração foi feita durante um painel do Macro Day, evento promovido pelo BTG Pactual, que contou também com a participação do banqueiro André Esteves, fundador e principal acionista da instituição.
“Há que se fazer um esforço de melhorar a relação dívida sobre Produto Interno Bruto (PIB), eu acho que essa é a questão central”, afirmou Alckmin.
A avaliação ocorreu no mesmo dia em que o Banco Central divulgou que a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB em julho, equivalente a R$ 10,9 trilhões. Em junho, o indicador estava em 81,9%. A dívida considera os compromissos do governo federal, do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), dos estados e dos municípios.
Ajuste fiscal e crescimento
Alckmin defendeu que o controle das despesas públicas não comprometa investimentos e setores considerados importantes para a expansão da economia. Para o vice-presidente, um ajuste baseado exclusivamente em cortes pode reduzir a atividade econômica e dificultar a própria melhora da relação entre dívida e PIB.
A relação entre os dois indicadores depende tanto da trajetória do endividamento quanto do crescimento da economia. Por isso, na avaliação de Alckmin, o governo precisa buscar equilíbrio entre responsabilidade fiscal e estímulo à atividade econômica.
O vice-presidente também afirmou que a proposta fiscal para 2027 prevê superávit primário de 0,5% do PIB. Segundo ele, o governo pretende buscar um resultado ainda melhor caso haja espaço nas contas públicas.
Os dados do Banco Central mostram que os juros continuam exercendo forte pressão sobre o endividamento. Entre janeiro e julho, a dívida bruta aumentou 3,9 pontos percentuais do PIB. A incorporação dos juros foi responsável por uma alta de 5,7 pontos percentuais, enquanto as emissões líquidas de dívida acrescentaram 1,5 ponto.
Por outro lado, o crescimento nominal do PIB ajudou a reduzir a pressão sobre o indicador, retirando 3,1 pontos percentuais da relação dívida/PIB no período.
Juros
Alckmin também relacionou a situação fiscal ao nível das taxas de juros e defendeu uma redução mais rápida do custo do dinheiro no país.
Segundo o vice-presidente, juros elevados representam um obstáculo para a atividade econômica, embora ele reconheça que o custo do crédito também está relacionado à percepção do mercado sobre a situação das contas públicas.
“Claro que entendo, isso é um problemão para a economia. O custo de capital tem que estar associado à questão fiscal”, afirmou.
Brasil e Estados Unidos retomam negociações
Durante o evento, Alckmin também demonstrou otimismo com a retomada das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Nesta segunda-feira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, participa de uma reunião virtual com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
As negociações estavam paralisadas desde julho, quando o governo norte-americano elevou as tarifas aplicadas a produtos brasileiros. O novo encontro ocorre dez dias após uma conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizada em 21 de agosto.
De acordo com Alckmin, o governo brasileiro pretende discutir não apenas as tarifas, mas também questões regulatórias e outras medidas que possam ampliar os investimentos e o comércio bilateral.
“Não tem tema proibido. Todos os temas tarifários e não tarifários podem e devem ser colocados. Nós temos tudo para ir para um ganha-ganha”, declarou.
Data centers e minerais críticos
Entre os assuntos que podem fazer parte das negociações está o Redata, programa criado para estimular a instalação de data centers no Brasil.
Alckmin afirmou que a iniciativa tem potencial para atrair até R$ 1 trilhão em investimentos e pode despertar o interesse de empresas norte-americanas do setor.
O vice-presidente destacou ainda a disponibilidade de energia renovável e a existência de excedentes de geração em determinadas regiões como fatores que podem favorecer a instalação desses empreendimentos no país.
Outro tema considerado estratégico pelo governo é a regulamentação de minerais críticos, que também poderá ser discutida nas negociações com os Estados Unidos.
Alckmin afirmou que o Brasil pretende manter o diálogo com o governo norte-americano mesmo que não haja um acordo imediato. Segundo ele, a expectativa é aprofundar as conversas ao longo dos próximos meses.
“Seja hoje ou daqui a alguns meses, vamos chegar a um bom entendimento com os Estados Unidos”, afirmou.
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